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ORDEM MISTA MAÇÓNICA
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A Maçonaria em Portugal ( 2ª. parte)

Março 17, 2019 às 01:28, Nenhum comentário

A MAÇONARIA: PRINCÍPIOS E VALORES FUNDAMENTAIS

 

Princípios gerais

Maçonaria ou Franco‑Maconaria

(de maçon, pedreiro), significa, literalmente,

pedreiro‑livre,

podendo traduzir‑se,

modernamente, por livre‑pensador.

A palavra freemason surgiu pela primeira vez na Inglaterra em 1376, embora

o mais antigo regulamento maçónico date de 1390. Antes desta data

são praticamente inexistentes documentos sobre a Maçonaria, porque, não

obstante as suas origens mergulharem na mais remota antiguidade, como

veremos, os seus ensinamentos, segredos e rituais sempre foram transmitidos,

apenas, pela via iniciática e pela tradição oral.

Maçonaria significa, pois, construção. O maçon constrói o seu futuro

tornando‑se

um homem melhor. A Maçonaria constrói o futuro da Humanidade,

tornando‑a

mais justa e perfeita. Este objetivo está inscrito, como pedra

angular, nas Constituições maçónicas do mundo moderno. As primeiras

Constituições do Grande Oriente Lusitano (G.O.L.), de 1806 e de 1821,

não definiam a Maçonaria, mas a de 1836 estabeleceu, no art. 1.º que a

Ordem maçónica, «tem por objeto o exercício da beneficência, o estudo

da moral universal, das ciências, das artes, e a prática de todas as virtudes»

. Esta ideia‑programa

foi transposta, com ligeiras variantes, para as

Constituições de 1840 e de 1841, até que em 1878, sob o Grao‑Mestrado

do Conde de Paraty, a Maçonaria é considerada «uma associação de homens

livres, unidos pelos laços do amor fraternal», tendo «por prática as

virtudes morais e sociais, e por fim a ilustração da humanidade».

A Constituição, de 1926, define a Maçonaria como «uma instituição essencialmente

humanitarista, procurando realizar as melhores condições de

vida social». A Constituição em vigor, de 1990 (última revisão), define‑a

como «uma Ordem universal, filosófica e progressiva, fundada na Tradição

iniciática, obedecendo aos princípios da Fraternidade e Tolerância e constituindo

uma aliança de homens livres e de bons costumes, de todas as

raças, nacionalidades e crenças». O seu escopo é o «aperfeiçoamento da

Humanidade através da elevação moral e espiritual do indivíduo».

Os grandes valores da Maçonaria estão sintetizados na sua divisa

universal: Liberdade, Igualdade, Fraternidade — Liberdade com ordem,

Igualdade com respeito e Fraternidade com justiça. A Maçonaria portuguesa

tem ainda por lema: Justiça, Verdade, Honra e Progresso.

A Maçonaria não é uma moral nem uma religião. Admite todas as

crenças e pratica a moral universal, que tem por base a primeira de todas

as virtudes: amar o próximo. A doutrina maçónica é a mais pura das

doutrinas, porque é livre de todas as limitações, escolas, teorias ou preconceitos.

O livre‑pensamento

é o único caminho da procura da verdade

e não pode, por isso, sofrer qualquer entrave. O livre‑pensamento ou

livre‑exame, pressupõe a tolerância e o respeito pelas ideias dos outros.

É essa a segunda virtude cultivada pelos maçons. A crença numa sociedade

mais perfeita é a sua terceira virtude e a força aglutinadora que,

em todos os tempos e em todos os lugares, congregou os «homens livres

e de bons costumes» para a tarefa, sempre inacabada, de construir a

fraternidade universal.

É uma Ordem no duplo sentido: de instituição perpétua e de associação

de pessoas ligadas por determinados valores, que perseguem

determinados fins e que estão vinculadas a certas regras e regulamentos.

É iniciática, porque, como adiante veremos, só pode nela ingressar quem

se submeta à cerimónia da iniciação, verdadeiro batismo maçónico, que

significa, literalmente, começo, e simboliza a passagem das trevas à «luz».

É ritualista, porque as suas reuniões ou trabalhos, obedecem a determinados ritos — conjunto de

formas — que traduzem, simbolicamente, sínteses de sabedoria, remontando

aos tempos mais recuados.

É universal e fraterna, porque o seu fim último é a fraternidade universal,

ou seja, o estabelecimento de uma única família na face da terra, em que os homens sejam, como no seio da Ordem, verdadeiramente

irmãos, sem qualquer distinção de raça, sexo, religião, ideologia e condição

social. O seu pendor internacionalista não afeta a realidade da

Pátria e da Nação. Como escreveu Fernando Pessoa, «a Nação é a escola

presente para a Super‑Nação futura». Amar a Pátria e a Humanidade

é outro dos deveres dos maçons. No final das reuniões é sempre dada a

palavra a quem dela queira usar «a bem da Pátria e da Humanidade».

É filosófica, porque, ultrapassada a fase operativa (corporações de

arquitetos e construtores medievais), transformou‑se,

a partir dos alvores do séc. XVIII, numa associação de caráter especulativo, procurando responder às mais profundas interrogações do homem. Conserva, contudo, o vocabulário, os utensílios e a simbologia dos construtores dos templos. Afinal, o fim último da Maçonaria é, como vimos, a construção de um homem novo e de uma sociedade nova. Por isso, todos os seus ritos assentam na ideia de construção e são baseados na geometria, amais nobre das artes, porque só ela permite compreender a medida de todas as coisas. Assim se justifica que a régua, o esquadro e o compasso  continuem a ser instrumentos privilegiados do pensamento maçónico.

É progressista, porque visa o progresso da Humanidade, no pressuposto

de que é possível um homem melhor numa sociedade melhor. Encurtar

as desigualdades e reduzir as injustiças sociais é um dos seus objetivos,

através da elevação moral e espiritual do indivíduo. Porém, a Maçonaria

não é uma instituição política e, muito menos, partidária. Está acima de

todos os partidos e fações, coexistindo nela pessoas das mais diversas

sensibilidades, crenças e ideologias. A política que pratica é a política no

verdadeiro sentido da palavra: a «polis», como forma de servir a sociedade.

A Maçonaria é, assim, um espaço de diálogo e de tolerância. A sua influência

no mundo profano não se exerce diretamente, pois não estabelece diretivas nem impõe qualquer tipo de intervenção concreta, mas apenas

indiretamente, através do exemplo, da pedagogia e da influência individual

dos seus membros nos locais onde exercem a sua atividade: no emprego,

nos partidos, nas organizações cívicas e sociais. Na linguagem simbólica

que utiliza, o seu propósito é transformar a «pedra bruta» na «pedra cúbica»,

a fim de «construir o templo», ou seja, fazer com que o indivíduo, egoísta

e isolado, se transforme num ser social e fraterno, cidadão de pleno direito e parte inteira, irmão de todos os homens e mulheres.

É livre‑pensadora,

porque não aceita dogmas, pratica a tolerância e

respeita a liberdade absoluta de consciência. O maçon tem o direito de

examinar e de criticar todas as opiniões e de discutir todos os problemas,

sem quaisquer peias ou limitações. A Maçonaria é antidogmática, tanto no

aspeto político, como religioso ou filosófico. A política e a religião pertencem

ao foro íntimo de cada um e não podem ser discutidas, salvo nos

termos genéricos acima referidos, para não abalar a união do povo maçónico,

pois, como se disse, a instituição congrega pessoas de todas as

crenças ou sem crença nenhuma, e de todas as ideologias não totalitárias.

Assim, é rotundamente falsa a acusação que vem dos tempos do «Santo

Oficio» e que foi retomada pela ditadura deposta em 25 de Abril de 1974

de que o maçon, ou pedreiro livre, é contra a religião. Muitos e ilustres

membros da Ordem foram e são crentes e, até, bispos e cardeais. E destes,

alguns ocuparam a cadeira de S. Pedro.

A Maçonaria aceita, aliás, a existência de um princípio superior, simbolizado

no «Supremo Arquiteto do Universo», que não tem definição e

que cada um interpreta segundo a sua sensibilidade ou convicções. Para

uns será o Deus em que acredita, para outros o Sol, fonte da vida, a

própria natureza, a lei moral ou ainda a resultante de todas as forças que

atuam no universo. Esta ideia implica o respeito por todas as religiões,

pois todas são igualmente verdadeiras, sem prejuízo do necessário combate

ao fanatismo e à superstição.

Segundo as Constituições de Anderson, frade escocês do séc. XVIII, a

Magna Carta da Maçonaria moderna, o maçon é obrigado a obedecer à

lei moral, mas «nunca será um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso

». Nos tempos remotos e medievais, o maçon era obrigado a perfilhar

a religião do seu país. Mas depois do Iluminismo e das reformas modernas,

considerou‑se mais adequado, como, aliás, se reconhece nas

referidas constituições, apenas lhe impor a religião sobre a qual todos

estão de acordo, e que consiste em amar o próximo, fazer o bem e ser

homem bom, de honra e probidade. Deste modo, a Maçonaria é uma casa

de união entre ateus, agnósticos e pessoas dos mais diversos credos, que

não se discutem por pertencerem à zona inviolável da consciência de

cada um. É este o sentido de divisa maçónica: Deus meumque jus.

Deve, porém, dizer‑se que a Maçonaria dita regular, tradicional ou de via

sagrada, por oposição ao ramo liberal ou laico, impõe, como veremos adiante, a crença em Deus e na imortalidade da alma, excluindo também as mulheres.

Este facto viola, em nosso entender, o princípio maçónico e constitucional

da igualdade (art. 13.º da Constituição da República Portuguesa).

Ao manter velhas regras de 300 anos (landmarks), apesar de apenas

em 1817 terem sido reduzidas a escrito, e que teima em não adequar aos

valores etico‑humanistas do nosso tempo, o ramo tradicional ou anglo‑

saxónico exclui da dignidade maçónica três quartos da Humanidade (…).


António Arnaud

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