Origens da Maçonaria
Há também quem, embora admitindo a influência do hermetismo antigo,
entenda que a Maçonaria nasceu com a construção do Templo de
Salomão (Séc. X a.C.), ele próprio iniciado nos mistérios de Elêusis, e
está ligada ao mito bíblico de Hiram, ou Hiram Abiff, o seu arquiteto.
O Templo, símbolo da Tolerância, demorou sete anos a construir e
empregou cerca de 100.000 operários, incluindo 8.000 pedreiros. Como
era impossível conhecer tantos servidores, Hiram classificou‑os em três
graus ou categorias — aprendizes, companheiros e mestres — e deu‑lhes,
para os reconhecer e se reconhecerem entre si, palavras e toques conforme
o grau. Tais sinais, à exceção dos de mestre, que se perderam com a
sua morte, são os mesmos ainda hoje usados em todos os ritos da Maçonaria.
Quando o Templo estava quase concluído, três maus companheiros,
não tendo logrado alcançar a mestria e o respetivo salário, conjuraram‑se
para extorquir de Hiram os sinais de mestre. Esconderam‑se, cada um,
em uma das três portas do Templo, numa tarde em que o arquiteto, depois
da saída dos operários, inspecionava os trabalhos.
Quando Hiram saía pela porta do ocidente, o primeiro companheiro,
armado com uma régua, impediu‑lhe
a passagem, pedindo‑lhe a palavra
sagrada e o sinal do grau. O Arquiteto recusou e o traidor desferiu‑lhe
uma paulada, que o atingiu no ombro. Hiram fugiu para a porta do norte,
onde estava o segundo companheiro que agiu da mesma forma e, perante
igual recusa, lhe vibrou uma pancada com o esquadro. Hiram tentou então
escapar‑se pela porta do oriente, mas foi interpelado pelo terceiro companheiro
que, tendo feito a mesma exigência e recebido idêntica recusa o
agrediu violentamente na fronte com um maço, provocando‑lhe
a morte.
Os assassinos transportaram a vítima para fora da cidade e enterraram‑no
em local assinalado com um ramo de acácia. Ali foi encontrado, mais
tarde, pelos outros mestres. Segundo a lenda, estes haviam combinado
que o primeiro sinal que fizessem e as primeiras palavras que proferissem
ao descobrirem o cadáver, ficassem para sempre como o sinal e a palavra
sagrada de mestre. Quiseram, assim, acautelar a eventualidade de os
sinais correspondentes ao grau terem sido descobertos pelos assassinos.
Tais palavras e sinais, que apenas são revelados quando um companheiro
ascende ao grau de mestre, ainda hoje são utilizados. Também os
graus estabelecidos por Hiram constituem, tantos séculos volvidos, os
três primeiros graus da Maçonaria. Aliás, a reconstituição da lenda faz
parte essencial do rito de elevação à condição de mestre maçon.
O assassínio de Hiram interrompeu os trabalhos e o Templo de Jerusalém
ficou por concluir, sendo mais tarde destruído pelos caldeus e pelos romanos.
Os maçons procuram desde então a palavra de Mestre, a fim de o poderem
reconstruir. Esta palavra perdida é a essência do segredo maçónico.
A sua descoberta permitirá a ressurreição simbólica do arquiteto e a construção
do novo «Templo», símbolo da fraternidade universal.
Estas lendas e mitos não têm confirmação histórica, salvo a existência
de Hiram, que vem referido na Bíblia (Primeiro Livro dos Reis, Vll‑13‑14).
Porém, as lendas e os mitos não são mais do que alegorias de uma realidade
perdida. E, sem dúvida que a Maçonaria, como ideal de transformação
do mundo e de conhecimento da origem e destino do homem, é tão antiga
como a Humanidade. A sobrevivência, nos seus rituais, de símbolos e signos
milenários é a prova de que guarda, nos seus escaninhos secretos, a
essência da sabedoria remota.
António Arnaud
